Publica Cartoons na imprensa desde 1990. Primeiramente começou por deixar o seu traço nas páginas do Diário do Alentejo, onde apresentava uma série em forma de tira, denominada “Beto o Traquinas”. Nela figuravam um grupo de miúdos e dela transmitia-se um humor que conquistava os sorrisos dos leitores. Pouco tempo depois, e durante quatro anos, a última página do jornal A Planície era animada pelo cartoonista com a série “Fecho… é claro”.
Como sportinguista que é, e como por vezes é possivel juntar a paixão à profissão, em 1999 Carlos Rico consegue um projecto no jornal do Sporting passando a “desenhar pelo seu clube”. Começa então a publicar cartoon no jornal do Sporting.
Esta fase dura até 2001. Volta em 2003, depois de uma paragem de dois anos. Reinicia a sua colaboração, publicando, semanalmente, um cartoon a cores, que ilustra textos humorísticos de temática desportiva. Em 2005, a página de humor é suprimida e passa a publicar, a cores, na última página, uma série de tiras cujo principal personagem – um leão, claro – foca temas relacionados com o clube de Alvalade e com o futebol em geral.
Em Fevereiro de 2003 cria a série “RIbanho” (no Diário do Alentejo), realizada juntamente com Luís Afonso, cartoonista conhecido por dar vida a séries como “Bartoon”, no Público, e “Barba e Cabelo” na contra-capa do jornal desportivo português A Bola.
Ilustra livros info-juvenis, com textos de Maria Eugénia Fernandes, sob a edição das Câmaras de Moura e Barrancos e publicou o álbum “A Moura Salúquia”, uma lenda mítica da cidade de Moura, em banda desenhada (1995).
O desenhador tem o privilégio de pertencer à FECO Portugal, uma associação independente de cartoonistas, sem ideologias políticas religiosas ou fins lucrativos, única no país, onde se realizam exposições, encontros, colóquios, conferências, sempre com a motivação de encontrar novos apaixonados e de promover a Banda Desenhada enquanto arte.
Carlos Rico foi convidado especial na Tertúlia BD de Lisboa, em 2000. Conquistou o Troféu Sobredão, em 2002, no salão BD da Sobreda. E, em 2006, recebe o Prémio Mais Ilustração atribuído pela revista Mais Alentejo.
Mais importante que os prémios, é sem dúvida, para Carlos Rico, a oportunidade de dar continuidade à sua carreira, na qual se dedica com grande paixão. Olhar para trás e sentir orgulho no caminho que “desenhou” com as próprias mãos. Graças a ele, e ao sucesso dos seus projectos, a sua cidade - Moura - tem ganho um maior reconhecimento nacional e também um nome “lá fora”.
Carlos Rico - Por volta dos três ou dos quatro anos comecei a dar os primeiros sinais. Gostava de “rabiscar” cadernos e também de folhear e observar atentamente os livros que os meus pais tinham usado na escola. Ficava horas sentado numa cadeira enquanto os outros miúdos se esfolavam, na rua, a jogar à bola… Com o passar do tempo, o diagnóstico confirmou-se: tinha nascido mais um desenhador!
F.M. - Lembra-se do seu primeiro desenho? O que era? Ainda o guarda?
C.R. - O primeiro desenho não tenho nem ideia dele! Até porque ao primeiro, certamente, não se lhe poderia chamar “desenho”. Quanto muito seria um garatujo! Mas tenho cadernos dessa época com os meus trabalhos… Lembro-me especialmente dum que fiz onde aparecem duas figuras sentadas frente a frente, vistas de perfil, enquanto que a mesa que as separa foi desenhada em planta (uma solução habitual entre as crianças desta idade)… Não sei porquê, este desenho ficou-me na memória, talvez porque representasse os meus pais…
«Uma escola de arte ajuda a melhorar as capacidades inatas mas nunca conseguirá fazer com que um pintor se transforme num bailarino ou num cantor»
C.R. - É o mesmo que perguntar a um apreciador de cinema quais são os seus filmes preferidos! Difícil, muito difícil escolher! É claro que eu poderia responder “gosto de BD’s do género western” ou “do género policial” e por aí fora. Mas isso seria limitar muito a escolha. De facto, dentro de cada género há histórias interessantíssimas!
Para abreviar, posso dizer que uma boa banda desenhada, para mim, tem que ter um bom desenho (com tudo o que isso tem de subjectivo, claro!), uma boa paginação e um texto inteligente que desenvolva o espírito crítico e o senso de humor! Se um destes componentes não tem qualidade suficiente não consigo iniciar a leitura! É remar contra a maré!
Gosto de uma banda desenhada que me divirta e que me faça pensar! E também gosto daquelas bandas desenhadas que têm mais do que uma leitura! Dá-me imenso prazer pegar num álbum que já tenha lido e, quando o vou ler pela segunda ou terceira vez, descubro coisas que antes não tinha reparado que lá estavam!
Um exemplo de uma excelente banda desenhada para ler: MAUS, de Art Spiegelman.
F.M. - E as personagens?
C.R. - Poderia dar-te uma lista enorme de personagens e de séries de BD que me agradam! Mas posso dizer-te que, por norma, gosto das personagens que são anti-heróis! O tipo que é muito penteadinho, muito certinho e muito inteligente até pode ser que se safe enquanto personagem de carne e osso mas enquanto personagem de BD acho que tem pouco potencial! Prova disso é que os personagens deste tipo (certinhos e inteligentes) têm, normalmente, um parceiro (mais humano, com defeitos exagerados) para contrapor à sua personalidade. Veja-se o caso de Astérix e de Obélix; de Tintin e do Capitão Haddock; de Lucky Luke e de Jolly Jumper; Mickey e Pateta; etc…
O meu anti-herói favorito é o Gaston Lagaffe, criado pelo belga Franquin.
F.M. - Sei que também criou as suas próprias personagens… No que é que se inspirou para criá-las?
C.R. - As personagens que criei foram quase todas elas criadas por encomenda!
Por exemplo, a série “Fecho… é claro!” que publiquei n’APlanície, durante três ou quatros anos, era composta por um pastor (que nunca teve nome, curiosamente) e o seu cão “Rabisco”. Juntos, denunciavam e condenavam os problemas que afectavam a nossa cidade (o fecho da maternidade e do hospital, o encerramento da estação de caminhos de ferro, etc). O primeiro cartune foi ilustrado por mim mediante um texto fornecido pelo jornal. Nesse texto aparecia, justamente, o pastor. Foi consensual que o pastor continuasse, a partir daí, a aparecer, embora já com textos meus.
Na série “Beto, o traquinas” (uma série em tiras, publicada no Diário do Alentejo), foi-me pedido que desenvolvesse uma banda desenhada “com crianças, género Mafalda ou Snoopy”. Durou também dois ou três anos esta série que, francamente, foi a que menos prazer me deu fazer, embora tenha sido aquela com que me estreei na imprensa, faz agora 20 anos!
Actualmente, tenho duas séries. O RIbanho, criada a meias entre mim e o Luís Afonso (que fornece os textos). Como se percebe pelo título, o personagem principal é também um pastor. Esta é a série de maior longevidade em que já trabalhei. Desde Fevereiro de 2003 (há, portanto, mais de sete anos) que, semanalmente esta tira é publicada no Diário do Alentejo. É uma tira que me dá imenso gozo fazer, neste momento!
Por último, tenho no jornal do Sporting uma tira semanal (sem título), com texto e desenho da minha responsabilidade, onde o personagem principal (um leão, claro) fala sobre assuntos do clube e dos seus adversários directos!
F.M. – Fez algum tipo de formação nesta área?
C.R. - Não fiz. E julgo que ninguém que se dedique a esta arte terá feito. Nem sei mesmo se haverá alguma escola que dê cursos de banda desenhada no nosso país! O que vejo é alguns autores fazerem, de quando em vez, alguns workshops onde tentam transmitir aos mais novos, os seus conhecimentos nesta área.
De resto, isto é um bocado genético! Como qualquer actividade artística, cada um nasce com o destino traçado! Uma escola de arte ajuda a melhorar as capacidades inatas mas nunca conseguirá fazer com que um pintor se transforme num bailarino ou num cantor (e vice-versa)!
A maioria dos nossos autores aprendeu a melhorar as suas capacidades por si próprio, desenhando constantemente, lendo muito, trocando impressões com outros colegas, visitando exposições, comparando estilos…
C.R. - Bem, esta pergunta merece uma resposta “faseada”. Por um lado, posso falar do projecto que mais gozo me deu realizar enquanto autor de BD. Aí, sem dúvida que tenho que referir dois factos: a publicação de trabalhos na imprensa escrita (que é uma coisa que sempre desejei e que, passados 20 anos, continuo a ter o prazer de fazer) e a publicação de álbuns (onde tenho que destacar, sem dúvida, a compilação de tiras da série RIbanho, que, para além de ser um álbum que ficou muito bom, na minha opinião, teve distribuição verdadeiramente nacional o que ajudou a que esgotasse rapidamente). Por outro lado, enquanto não-autor, tenho que destacar também dois factos: a coordenação e montagem dos salões Moura BD (que é uma actividade que me dá um enorme prazer) e a coordenação do projecto “Salúquia: a lenda de Moura em banda desenhada” (que foi um sonho que acalentei durante cinco anos e que, felizmente, em 2009, se tornou realidade). É justo referir o apoio da Câmara Municipal de Moura a estas duas últimas iniciativas, sem o que teria sido impossível concretizar estes projectos.
F.M. - Quanto tempo dedica a esta arte?
C.R. - Dedico uma boa parte do meu tempo, claro! Enquanto autor, tenho sempre alguns dias predefinidos para trabalhar nos cartunes que, semanalmente, publico nos jornais.
Neste momento, tenho também à minha responsabilidade a publicação de uma banda desenhada no Boletim Municipal, com temas ambientais e a coordenação do projecto para o Moura BD 2011 (que é necessário começar a preparar com bastante antecedência).
Enquanto leitor, quase todos os dias leio BD (tenho uma bedeteca pessoal bem recheada) e sempre que posso compro e leio álbuns ou revistas. Agora, por exemplo, estou a coleccionar “Alix”, a série de BD que o Público lançou com o jornal das quartas-feiras.
F.M. – Como vê a banda desenhada, enquanto arte, em Portugal?
C.R. - Não é fácil a vida de um artista (seja de que área for) no nosso país! Os autores de banda desenhada portugueses têm, quase todos eles, uma actividade paralela (normalmente na área da publicidade e do design) que os sustenta, enquanto que a banda desenhada é deixada para segundo plano, uma vez que ninguém consegue sobreviver só a fazer BD. As editoras, talvez fruto de um mercado pequeno e pouco renovado, arriscam pouco e isso não é bom nem para os autores nem para as próprias editoras. Nos últimos tempos, algumas autarquias têm percebido a importância da 9ª. Arte como meio de comunicação e têm aparecido algumas encomendas a banda-desenhistas nacionais para contarem, através da BD, a História dessas cidades (é o caso de Moura que editou recentemente a Lenda da Moura Salúquia).
Por outro lado, a banda desenhada, infelizmente, ainda é encarada por muita gente como uma coisa só para crianças. É certo que há banda desenhada especificamente para crianças (e que pode muito bem ser aproveitada para ajudar a “encaminhar” essas mesmas crianças para caminhos melhores, longe de “atalhos” ou de “precipícios” tantas vezes maléficos). Os chamados “livros do Tio Patinhas” têm, por certo, o seu encanto e um lugar muito especial nas prateleiras das estantes de livros de cada um de nós.
Mas parece-me que é importante sensibilizar algumas pessoas de que existe outra banda desenhada, direccionada para outras idades, com argumentos inteligentes, que nos fazem reflectir sobre problemas sérios e actuais. Tal como existe um tipo de literatura, de teatro ou de cinema para jovens e menos jovens, também a banda desenhada tem histórias para todas as idades mas creio que ainda há pessoas que assim não o entendem e, dessa forma, acabam por menosprezar uma forma de arte com cerca de dois séculos!
como Espanha, Itália, Brasil, Argentina, Rússia ou Ucrânia
mediante a banda desenhada!»
C.R. - As minhas referências são, normalmente, os autores que admiro. O número um, para mim, é sem dúvida, o Franquin, autor de Gaston Lagaffe. Embora já tenha falecido há alguns anos, o seu trabalho continua actual e a vender aos milhares todos os anos! O Franquin foi também o autor que pegou na série Spirou e a renovou, por completo, dando-lhe a fama (e o proveito) de que hoje beneficia. O personagem do Marsupilami, por exemplo, foi criado por ele!
F.M. - É rentável uma vida como desenhador?
C.R. - Como desenhador de banda desenhada é muito rentável… na Bélgica, na França ou nos Estados Unidos! Em Portugal, como já disse, é complicado. Mas não é impossível! Há que arranjar soluções para contornar a questão! Como disse, a maior parte dos autores nacionais tem uma actividade paralela à BD…
«(…) para sobreviver, a BD terá, forçosamente, que “interagir” com a Internet.»
C.R. - O verdadeiro prémio, para mim, é olhar para trás, neste percurso de vinte anos, e saber que fiz o melhor que pude e que sei pela 9ª. Arte.
Tenho orgulho quando sinto que contribuí para que Moura seja, hoje em dia, uma referencia importante na banda desenhada nacional.
Três exemplos muito rápidos que justificam o que digo:
Primeiro: por mais do que uma vez as publicações de banda desenhada que lançámos no Moura BD já foram nomeadas para os Prémios Nacionais de Banda Desenhada, no Festival da Amadora, o maior que se realiza no nosso país e um dos maiores da Europa! Isso não se consegue facilmente: é porque, de facto, as publicações que lançamos têm qualidade acima da média!
Segundo: o nome de Moura já chegou a países como Espanha, Itália, Brasil, Argentina, Rússia ou Ucrânia mediante a banda desenhada! Sabemos disso porque temos tido autores desses países a participarem nos nossos concursos de BD e Cartoon ou porque recebemos revistas que falam (de maneira muito elogioso) do nosso festival!
Terceiro: muita gente não conhecia Moura antes do salão Moura BD se realizar e, depois de cá virem uma vez, habituaram-se a visitar-nos para conhecer melhor a cidade, as pessoas e os seus monumentos...
São estes pequenos pormenores que me fazem verdadeiramente feliz e que, ao mesmo tempo, me deixam com uma responsabilidade maior quanto a projectos futuros…
F.M. - Acha que os jovens deste novo século, altamente tecnológico, habituados aos computadores e aos jogos virtuais, ainda se interessam por artes como a banda desenhada?
C.R. - Julgo que sim, embora, como é natural, havendo tanta oferta, seja difícil que a banda desenhada tenha tantos leitores como tinha nos anos 30 ou 40 quando, por exemplo, a televisão, o computador ou os jogos de vídeo ainda não existiam! Eu penso é que a BD tem de encontrar maneiras de se adaptar aos novos tempos. Julgo que isso se irá fazendo gradualmente. Já é visível, aliás, em alguns blogues, onde alguns autores passaram a publicar on-line o seu trabalho. Os próprios fanzines (publicações amadoras) começam a ser publicados na Internet em formato virtual e não em papel fotocopiado. Não sei se será a solução ideal. Teremos que aguardar para ver, mas uma coisa é certa: para sobreviver, a BD terá, forçosamente, que “interagir” com a Internet.
F.M. - A 9ª. Arte está em constante renovação, de profissionais, ou há cada vez menos interesse por parte dos jovens?
C.R. - Na Bélgica, na França, na Itália, nos Estados Unidos e em muitos outros países a banda desenhada tem um público fiel e comprador que permite que essa seja uma indústria rentável e, consequentemente, que possa ir renovando os seus quadros. Na Itália, por exemplo, a Sérgio Bonelli Editore, a editora de Tex (o mais antigo cow-boy europeu, com mais de 60 anos no activo!) tem um conjunto de desenhadores e de argumentistas que trabalham diariamente para produzir revistas de banda desenhada. Em 2007 tivemos no salão Moura BD uma mostra com pranchas da nova vaga de desenhadores de Tex (cerca de uma vintena de novos autores) que demonstram que a BD, quando tem mercado, tem o futuro assegurado!
F.M. - Quer deixar algum conselho para os mais interessados nesta área?
C.R. - Diria que, quando se tem um sonho, é preciso nunca desistir dele!
Quem perseguir o sonho de se tornar num autor de BD deve ir em frente, apesar das dificuldades. Desistir nunca será uma boa solução…

1 comentário:
Bom trabalho! parabéns
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